Maio/Junho de 2004 - Ano III - Número 8
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Perfil: Testemunha Ocular
Fogueira das vaidades
Trocando o filme pelo cartão
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  Trocando o filme pelo cartão  
 

Ainda não é o adeus definitivo aos negativos nas editorias de Fotografia. Mas os jornais robustos, em sua maioria, investiram pesado na digitalização. A marcha acelerada da tecnologia digital já avançou das câmeras aos arquivos. E deixou pelo caminho o sofrimento na hora de transmitir a foto. Em menos de cinco anos passou-se do telefax ao laptop. E chegou-se aos moderníssimos palmtops, pecinha leve que cabe na bolsa e até transmite fotos, mas ainda sem formatação (não permite cortes, ajustes). O próximo reinado será o dos celulares, já utilizados atualmente mas ainda sem boa resolução e espaço para muitas informações. E quem pensa que o mundo digitalizado é mais zen do que o analógico, enganou-se! No meio dessa corrida, o profissional de imagem sua a camisa para chegar junto das novidades, que aparecem de avalanche. O velho sofá onde se esperava sentado a vez de ir para a rua fotografar acabou. Agora, uma vez na rua vai-se de uma pauta a outra em um piscar de olhos, resultado do número grande de pautas frias (pré-agendadas) do jornalismo brasileiro dos dias de hoje e do celular. Num futuro próximo, o fotojornalista será também virtual. Vai aparecer muito pouco na redação. Ele receberá a pauta em casa e o material fotografado será enviado de casa ou do local da reportagem, via Internet, já tratado e praticamente pronto para impressão.
No jornalismo, o departamento de Fotografia tem sido a ponta de lança das novas tecnologias e das planilhas de custo das empresas jornalísticas. Desde a mudança de P/B para cor, dos equipamentos de transmissão para a informatização das redações, é na fotografia que as mudanças ocorrem de forma mais radical. Se antes uma foto levava até 45 minutos para se revelar como uma informação de qualidade (em média 20 minutos para o filme ser revelado, 15 para a foto ser copiada etcetcetc), com as máquinas digitais esse controle é imediato. Com os cartões de armazenamento, o próprio equipamento digital dá condições ao fotojornalista de corrigir na hora. Não serve, não atende os padrões do jornal, deleta-se! É a pá de cal na Síndrome da Ansiedade e da Dúvida, a doença que pegava em todo fotojornalista, experiente ou novato — no filme, tem que se esperar a revelação para se ter a certeza de que as fotos estão boas ou a foto esperada está lá.
Se tempo é dinheiro, e agilidade — que hoje no jornalismo é uma moeda forte —, não só a economia com filmes, revelação, químicas, papel, motoristas, táxi etcetc mas também do percurso entre a produção da imagem e a impressão compensou toda a reforma nos departamentos de fotografia. O mais importante nesse início de século na imprensa diária é encurtar a distância entre o acontecimento e a publicação. Isso atrai anunciantes e leitores, o que significa mercado. As cifras dos investimentos, a maior parte em dólar, não são reveladas e só há previsão do retorno desse investimento em um prazo de cinco anos, em média. Mas vale a pena, já que os sites e o arquivo são um grande filão de negócios. Hoje a maioria dos jornais tem versão on line e agência de notícias, onde o forte é a venda de imagens.
Há cerca de dez anos, os jornais vêm experimentando equipamentos digitais, usando câmeras, scanners, programas, enfim, buscando andar em sintonia com o restante do mundo e atender à velocidade da informação imprimida pela globalização. Nessa virada, as máquinas analógicas foram substituídas, eliminando duas etapas do processo antigo: a revelação do filme e seu escaneamento. Um indicador dessa “revolução” é a diferença de rendimento entre o filme e o cartão. Um filme convencional tem capacidade para 36 fotos. Em contrapartida, o cartão digital pode armazenar até 120 fotos, dependendo do tamanho da imagem, com a vantagem de poder ser reutilizado: é só apagar e começar de novo.
Em 1996, O Dia foi o primeiro jornal do Rio a usar o processo de digitalização de fotos e textos em suas páginas. O sistema Hermes Unissys (foto, texto e paginação) interliga todas as editorias. A editoria de fotografia opera hoje com oito máquinas Canon 502. Os 23 profissionais recebem cada um 3 cartões (dois de 256 e um de 128 megas), que cabem cerca de 400 fotos. O fotojornalista chega da rua, descarrega o material que foi feito em um disquete, seleciona de quatro a cinco fotos no Photoshop para a publicação e coloca todas as informações necessárias para arquivamento: Assunto, Personagem, Crédito do profissional, etc. Tudo aquilo que for facilitar na identificação da imagem. Depois, o que foi selecionado vai para a edição. Antes, a imagem passa por um tratamento, ajustado de acordo com o padrão do jornal. Depois, as fotos são encaminhadas para o setor de scanner e arquivadas tradicionalmente. Não há número pré-estabelecido para a escolha das imagens que serão disponibilizadas. “Depende do rendimento da pauta”, conta Carlos Mesquita, que esteve à frente
da editoria por um longo tempo. Diariamente circulam pelo sistema cerca de 300 fotos. Durante 24 horas ficam disponibilizadas, pelo programa Wirecenter. Depois, são arquivadas definitivamente em outro programa (Doccenter).
O mais robusto da imprensa do Rio, o jornal O Globo, tem seu departamento de Fotografia totalmente digitalizado desde o ano passado, o que trouxe mais agilidade e melhor resultado no trabalho de seus profissionais de imagem. No total, são 48 máquinas Canon 1D, fora as de backup, e dez computadores, onde roda o FotoStation, um programa que permite fazer uns ajustes na foto, usando o Photoshop, mas que impede alterações que podem comprometer os padrões necessários para a pré-impressão, comprometendo a credibilidade da informação. E que também abastece de dados o Centro de Documentação e Informação (CDI).
Esse departamento, coordenado por Joice Cardoso, conta com 25 funcionários — o Globo OnLine e a Agência O Globo também estão interligados ao CDI. O trabalho principal do Centro é o de arquivar as matérias publicadas nos Jornais O Globo e Extra. A coordenadora do departamento, Joice Cardoso, explica que o serviço é dividido em dois setores. O temporário (produção diária, com o serviço à disposição dos profissionais da Casa por 30 dias) e o arquivo em si:
— Os textos e fotos ficam armazenados, indexados no computador por Assuntos, Pessoas, Publicações e Profissionais.
Sobre o material antigo (negativos) arquivado no jornal, Joice explica que as imagens são digitalizadas de acordo com a requisição da redação e das compras. “Não há um projeto, no momento, para a digitalização de todo esse acervo, mas há a preocupação da empresa em preservar todo o material que tem. No total, o CDI funciona com seis terminais fotos-testes; dois terminais de DVD (utilizado para arquivo das imagens, publicadas ou não) e o Digicol (base de dados para consultas), que disponibiliza 10 das 20 imagens arquivadas. Joice conta que as primeiras versões de digitais apresentavam a qualidade das imagens inferior a do filme. “Perdiam definição quando ampliadas, hoje isso acabou!”
No Globo, a primeira “limpada” do material é o próprio fotojornalista quem faz, no micro da editoria, selecionando 20 fotos do cartão para publicação e arquivamento. “Esse número é capaz de representar o trabalho do fotógrafo e é aplicado em qualquer matéria, independente do que seja o assunto, e guardado em DVD”, explica o editor de fotografia de O Globo, Alexandre Sassaki. Em sua opinião, a fotodigitalização traz rapidez e eficiência do trabalho como resultado e facilitou muito a transmissão de foto. No comando da equipe do jornal há sete anos, Sassaki trouxe na bagagem a experiência pioneira do Dia, de onde saiu para O Globo. ”As máquinas digitais hoje produzem imagens que podem ser ampliadas sem perda de qualidade. E o fotojornalista não precisa mais transportar um laboratório portátil para revelar o filme. Basta um laptop e uma linha telefônica para a transmissão das imagens.”
    As vantagens na rotina diária são muitas assim como as mudanças. O pessoal que trabalhava com laboratório foi absorvido pela pré-impressão, pelo tratamento de imagem. E até o papel do editor mudou. Sassaki explica que no Globo ele acompanha o trabalho da equipe pela rede, como um gestor. Isso implicou em mudança de mentalidade dos profissionais. “Ninguém melhor do que o fotojornalista para avaliar as melhores imagens. Afinal ele é que estava lá e sabe o que é importante ou não” — antigamente, o editor sentava ao lado do repórter e olhava fotograma por fotograma. "Agora, é preciso identificar o material com uma legenda que mostre sua percepção do fato. Ela será muito importante no arquivamento, porque o cara ao lado do José Dirceu pode não ser importante hoje mas amanhã pode passar a ser.”
Para minimizar o impacto das mudanças o jornal promove um treinamento de seus profissionais, inclusive para os profissionais da pré-impressão, que no Globo, são de responsabilidade da Fotografia. E a equipe tem que estar afinada. “Uma particularidade dos dias de hoje é sobre fotos de agência. Elas são disponibilizadas com determinado padrão para publicação. Se nos outros jornais a foto sai com uma cor e no nosso sai diferente, tem algo errado. Com quem?”, explica Sassaki. No Globo não há mais nenhuma processadora de filme em operação, mas a editoria mantém um kit de emergência, e um laboratorista a postos, caso apareça um material excepcional de fora em filme. A equipe é formada no Rio por 8 fotojornalistas do jornal Extra, 34 do Globo, mais 5 fotógrafos em Brasília e um em Recife.
Apesar dos benefícios trazidos pelo avanço tecnológico - redução de custos e tempo, por exemplo, nem todas as empresas puderam ou se dispuseram a investir na digitalização. O Jornal do Brasil, por exemplo, trabalha com duas câmeras digitais. Ismar Inger, editor de fotografia do jornal diz que não há número mínimo ou máximo para arquivamento de fotos. “Tudo vai depender da pauta”. Na Tribuna da Imprensa, por exemplo, só tem um fotojornalista, no entanto ele tinha a sua disposição duas câmeras digitais (Colpix e a Nikon D100, que foi roubada). Jorge Machado está no jornal há 41 anos e conta que há pouco mais de um ano, a Tribuna começou a usar digital. Ele utiliza o cartão magnético de acordo com a necessidade do serviço, sem normas especiais. Depois, o material fica armazenado em um computador central. As fotos são selecionadas e escolhidas pelas editorias.
Entretanto, no Jornal do Commercio ainda é utilizado o sistema tradicional de filme. O departamento fotográfico opera com três profissionais, entre eles Adilson Vasconcelos. Com 22 anos de empresa, ele explica que o jornal tentou implantar o processo digital, mas o resultado não foi satisfatório. As máquinas, modelo Kodak, não foram aprovadas, “sem falar no alto custo financeiro”, complementa. Segundo Adilson, não há previsão para a volta do sistema digital. Lá, os fotojornalistas trabalham no sistema antigo. Quando voltam da rua, entregam o material identificado para o laboratorista, que revela o filme. E como o jornal é voltado somente para o setor econômico, o trabalho é reduzido: não fazemos cobertura total da cidade, como esportes, polícia. “Para se ter uma idéia da diferença, não temos chefe. Isso facilita bem as coisas”, explica Adilson.

 
 
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